A vida é uma constante espera. Uma jornada onde o que é
privilegiado é o futuro, o que ainda temos para conquistar, o salário ideal, a
casa dos sonhos, o relacionamento perfeito, o corpo saudável e desejável, os
amigos sinceros, noites perfeitas e novamente a espera que se repete
anualmente: todos querem uma noite de Natal mágica.
Devo estar escrevendo essas linhas
porque hoje, fatalmente é dia 1 de dezembro. Quer fatalidade mais cruel que
essa? Saber que todos os anos são iguais? Vivemos então numa constante espera
por momentos iguais, porém diferentes... Porque as festas comemorativas,
principalmente o Natal é uma fatalidade que para muitos deveria não acontecer.
Um
erro.
Veja o prefeito de nossa cidade... Deve odiar tanto o Natal
que cogitou a possibilidade de não iluminar a cidade com as tão esperadas luzes
natalinas. Ele deve odiar o Natal porque para ele o Natal significa gastar
muito dinheiro e portanto, infelicidade.
Será que o mendigo que foi morto à
pauladas na madrugada de ontem gostava da noite de Natal? Alguém sabe me
responder? Aposto que não. Porque
conversar com um mendigo também é um erro. Para que perder tempo com essas
pessoas perdidas pelo tempo, pelo desprezo e pelas drogas? É muito melhor viver
nessa constante espera por algo que muitas vezes nem sabemos o que é do que
perdemos alguns momentos de nosso tempo para olhar o que está em nossa volta.
O assassinato do mendigo ocorreu na esquina da minha casa. O
delegado em entrevista a CBN informou que a polícia não soube identificar a
identidade do moço. Morador de rua não tem nada, nem dinheiro e nem direito de
ser alguém com nome, sobrenome, data de nascimento. Morador de rua tem pai? Tem
Natal? Fatalmente minha resposta é não.
Fatalmente dezembro chegou e com ele
muitas reflexões... Muita espera. Muito vazio. Muita esperança de que a mudança
aconteça. Muitas luzes e a alma escura que nem mesmo a mais bela das luzes
conseguiria acender.
Quando somos crianças nossa espera significa outra coisa... Na
adolescência esperamos pela autonomia e respeito e isso nunca acontece.
Fatalmente a maturidade chega e com ela o trabalho, o
resultado dos estudos, uma possível
tentativa de estabilidade. O casamento acontece, o amor fatalmente surge em sua
vida. Essa é a fatalidade mais desejada
e universalmente proclamada.
Fatalmente é dezembro e fatalmente as
expectativas que faz presente neste mês também. O que não nos explicaram é como
é possível vivenciar realmente o espírito de natalino com tanta violência,
deslealdade, desamor.
Um mendigo morreu na esquina de minha casa há menos de 48
horas. Um senhor que deveria ter uma vida mais tranquila vende frutas na outra
esquina da minha casa, pois ele esperou a vida inteira por uma velhice digna e
isso não aconteceu. A juventude do moço bonito viciado em crack que vaga pelo
quarteirão onde moro foi perdida, e ele ainda espera o dia em que mude de vida.
A espera... A mudança... Esses sentimentos fatalmente se
renovam no período que antecede o Natal...
Eu continuo esperando a noite mágica
do Natal, como aquela registrada em foto quando por volta dos meus 5 anos de
idade o Papai Noel entrou na minha casa e me deu a minha tão sonhada
bicicleta...